Cervejaria Artéria, uma conversa
pulsante na Ecofeira

Ana e João

Uma bola rolou até os pés da mesinha de ferro onde estávamos sentados e fez chacoalhar algumas garrafas de cerveja e outras, mais altas e robustas, de cachaça. O choque da bola contra os pés da mesa produziu um tilintar que nos sobressaltou. Todas as mãos próximas se apressaram a pousar nos vasilhames de vidro para protegê-los. Sussurramos alguns comentários inquietos e sorrimos, nervosos. O menininho dono da bola pegou seu brinquedo de volta com um movimento lento e cuidadoso e olhos mais abertos que o normal. Algumas pessoas que caminhavam pela feira se solidarizaram vendo a cena e compartilharam comentários admirados: “Por pouco, né?”, “Nossa!”, “Uau, hein?”.

“Nossa” e “uau” são exclamações que se repetem quando vamos ouvindo a Ana e o João falarem sobre o trabalho artesanal com as cervejas que eles fazem. E, sim, o produto deles é delicado. E feito com muito cuidado e dedicação. Biólogos de formação, os dois se conheceram e começaram a namorar na faculdade. Tornaram-se cervejeiros por gosto, mas também porque, parece, a vida apreciou que fosse assim.

No começo, tudo era absolutamente caseiro, o produto e o consumo. Produção para eles mesmos. Depois também para os amigos. Um dia uma prima quis comprar. Logo depois o pai da Ana também. Com o tempo, pediu rótulo e garrafa bacana. Estava cansado de servir para os amigos uma cerveja gostosa, mas que não tinha cara de nada. Pronto. Desafio lançado e há um ano essa produção começou a ser feita com regularidade, profissionalismo e também com muito coração!

O que a Ana e o João fazem desde então é, como eles mesmos explicam, “ciência e arte” – e muito amor também, incluo aqui por minha conta e risco. De um lado, a produção de cerveja é um processo que requer bastante técnica e precisão. De outro, também é uma arte, uma expressão estética desses dois jovens no mundo. Do desenvolvimento de uma receita à apresentação da embalagem, tudo é criação.

E a Ana conta, com graça, como se lançou a aprender a fazer até os rótulos. Precisou descobrir como usar o Core, começou a desenhar, fotografar, trabalhar imagens… coisas que nunca tinha feito antes. E faz o que for preciso, o que cada produção pedir. Aliás, como diz o João, a única coisa que não fazem ainda “é derreter areia para produzir garrafas”!

Eu me encanto ao saber que depois que uma cerveja ganha nome e uma imagem – não necessariamente sempre nessa ordem, suponho – a Ana ainda compõe uma poesia, que vai escrita no rótulo. Que amor! Distraio-me lendo a que tenho nas mãos. Uma pessoa se aproxima e pergunta sobre a cachaça. A família do João produz cachaça há 150 anos, no Alambique Caninha de Jambeiro, na Tamoios. Olho o rótulo dessas garrafas e me lembro perfeitamente do engenho próximo à estrada, quando passava por lá descendo para
a praia sem pressa, olhando a paisagem, na época em que ainda dava pra parar e comprar frutas e agrados sossegadamente.

Humm… história de família. Ecos no presente. Hoje Ana e João produzem 60 litros de cerveja por mês, três
produções a cada 30 dias, de diferentes receitas, que vão desenvolvendo, repetindo ou aprimorando. O equipamento que têm só permite 20 litros a cada produção. E o processo é bem longo: a brasagem, parte quente, leva três dias seguidos (para os 60 litros), a fermentação, parte fria, de sete a dez, a maturação, fria também, no mínimo quinze dias. Se pensarmos que tudo começa com o estudo, a pesquisa, a montagem da receita e a preparação dos ingredientes, dá pra notar que fazer cerveja não é  nada simples e que a nossa melhor imaginação dificilmente irá alcançar tudo o que acontece ali.

A conversa segue com aquela sonoridade diferente e lá vou eu me deliciando com os nomes – carbonatação,
maturação, filtragem, lúpulo, malte, levedura – e com histórias para mim nada usuais. Para além da inspiração dos dois, cada cerveja acaba tendo também um percurso próprio. Parece que cada uma tem a sua vida, a sua história. Ana e João muitas vezes apenas acompanham.

Uma, contam, teve um nascimento difícil. Era uma cerveja encorpada, forte. O nome não vinha. A Ana, em sua paixão pela preservação do meio ambiente, queria falar, com ela, dos rios, dessa força que precisa ser preservada. Mas “Rio” não seria um bom nome. Dias maturando e matutando sobre isso e nada de a ideia surgir. Impaciência, cansaço, pesquisa, labuta, paciência, impaciência… Um dia o nome brotou: “Correnteza”!

E nesse fluxo vigoroso veio também o desenho para o rótulo, uma espécie de xilogravura, que a Ana mesma foi produzir. Sim, um desenho em estilo xilográfico, que a bióloga foi criar. Toca a desenhar. Vocês ainda se lembram de que a coisa é feita com o coração, não é? Então…

Penso que correnteza é o que são mesmo esses dois. Mas logo me lembram de que, às vezes, também podem ser “Flor”. Então, eu termino de me encantar escutando a história dessa outra cerveja, que combinou sete flores: hibisco, rosa branca, pata de vaca, jasmim, ipê amarelo, camomila e laranjeira! Pesquisaram, experimentaram proporções, testaram, modificaram quantidades ínfimas… uma verdadeira busca alquímica.

Quando já haviam chegado à composição que desejavam, a sobrinha que mora perto e divide o mesmo quintal se aproximou um dia com um buquê de flores, especialmente colhido para colocarem na cerveja que estavam criando. Nenhuma flor do buquê era comestível, então, não dava pra usar na composição. Mas o buquê foi fotografado, valorizado e acabou indo para o rótulo, com um lindo beija-flor colorido nele. Nada é
desprezado. É isso. Sustentabilidade e não desperdício fazem parte importante dessa história.

Depois da bola quicando no pé da mesa, um vento mais forte balançou o gazebo onde estávamos. Levantamos. Ana e João seguraram com firmeza a cobertura. Sabem que precisam estar atentos.
Hora de pegar a minha “Illusio” – a cerveja da produção deste mês – e levar para casa, com outros quitutes e
preciosidades da feira, de um domingo que foi clareando aos poucos.

Na hora de sair, já ia colocando a cerveja deitada na minha bolsa de feira, e eles me chamaram a atenção: “Não. Assim a levedura mistura, altera a cor. Leva de pezinha”. Tirei da bolsa e carreguei na sacolinha mesmo. Quando me distraía, lá estava a garrafinha deitada. Cheguei em casa segurando a cerveja pelo gargalo, como se fosse um troféu. E era. Uma preciosidade, com certeza!

Olho a garrafa agora. É uma cerveja escura, que tem no rótulo uma borboleta preta do gênero Caligo. De asas abertas como está nessa imagem, ela deixa aparecer suas manchas, que se assemelham a dois grandes olhos de coruja – “o que muitas borboletas desse gênero fazem, como recurso para atemorizar predadores”, Ana me explicara. Ela havia me contado também que as pessoas não reconhecem facilmente a borboleta nesse rótulo, mas que uma vez uma criança se aproximou da mesa de exposição das cervejas e disse de pronto: “Que borboleta linda!”.

Só crianças para nos surpreenderem com bolas quicando perto de vidros e também com seus olhos que enxergam além da ilusão, mostrando-nos que é possível ver a beleza do que simplesmente é. Abro a garrafa. Aroma, borbulhas, o som de um brinde. Saúde! Viva o sabor, cores, sons, toques e imagens da vida! Viva as coisas pulsantes, feitas com verdade e com o coração!

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