UM DIA COM A FAMÍLIA DIAS

O combinado

Foram dias e dias para conseguir marcar – e ir – ao encontro da Família Dias. Finalmente, conseguimos! Quarta-feira, 3 de maio de 2017, hum… dia auspicioso: Dia de Santa Cruz, padroeira do lugar! E que dia ensolarado!


A ida

O dia estava propício. Saí de casa às 12h30, rumo ao bairro da Capelinha, em Caucaia do Alto, município de Cotia. Ouvi as explicações de Gisele e marcamos um ponto de encontro na própria Estrada da Capelinha. Kelvin foi ao meu encontro.

A tarde continuava ensolarada, e lá fui eu, seguindo o Kelvin, pegando a estradinha de terra e chegando à casa da Família Dias.


A chegada

Fui muito bem recebida pela família querida, já amiga de longa data. O sol e o sorriso da Gisele, do Seu Benedito e do Kelvin me receberam na nova ala recém-construída. Com muito orgulho, me mostraram os novos cômodos, que contrastam com a casa defronte, que tem mais de cem anos e onde, agora, praticamente só dormem. Escritório, banheiro, uma cozinha muito bonita e uma área espaçosa com forno a lenha e uma boa mesa retangular, onde sentamos e conversamos e conversamos.


A conversa

Ah! Um bom dedo de prosa! A Gisele gosta de contar, de relembrar as histórias da família. Seu Benedito e Kelvin mais escutam, e concordam com a matriarca.
Fui o caminho todo pensando se ia ou não gravar a entrevista. De comum acordo, decidimos não gravar. Para tudo ficar mais à vontade. Como sempre foi. A conversa flui.


A família

Quem está por trás da Família Dias Orgânicos?
Gisele da Penha Silva Dias; Benedito Nunes Dias e Kelvin Andrei da Silva Dias.
O casal, comprometido há 32 e casado há 28 anos e o Kelvin… ah! Um presente para eles há 26 anos!


A história

Dá para dizer que tudo começou muito antes deles nascerem. As famílias do casal já eram do bairro, tinham terras, sempre plantaram. São da terra. Gente da roça.

Seu Benedito, com 51 anos, se diverte ao lembrar que, com 5, 6 anos, já ajudava na roça, a colher batata. Será por isso que até hoje a batata é a paixão dele? (Quando me mostrou a parte da plantação de batata, foi me confessando que era a sua paixão).

Tem o episódio em que ele, pequenino, pegou uma peneira, deixou-a macia e dormiu em plena roça. E foi aquele susto, todo mundo procurando o Tico e lá estava ele tirando uma boa soneca!

Ele e a Gisele se conheceram e tinham amizade desde que eram crianças, e a amizade depois se tornou namoro, noivado, casamento e, com a vinda do Kelvin, uma família.

Mesmo nos momentos mais difíceis, seu Benedito nunca quis deixar a roça, aquela vida de preparar a terra, o plantio, semear, carpir, colher… seguindo os ciclos da terra, das estações…

Seu Benedito não seguiu os estudos, a Gisele continuou, fez Magistério, e tem muito orgulho ao contar que o avô usava a própria casa para servir de escola, quando não tinha nada por ali, e alfabetizou muita gente.

Com orgulho, me mostra a grande escola do lugar, que leva o nome de seu avô: Escola Municipal José Manoel de Oliveira, cujo terreno foi doado pela família da mãe dela.


Família Dias

A.O. – D.O.
(Antes e Depois dos Orgânicos)

E a Família Dias seguia plantando no sistema convencional, ou seja, usando “veneno”, o jeito que Gisele chama os agrotóxicos. Acontece que Seu Benedito passou muito mal duas vezes e na segunda vez, quase morreu “envenenado”. Eles arrendavam uma terra na região, as coisas ficaram muito difíceis, lá pelo ano de 2003, quando tiveram de vender tudo o que tinham, até o trator, para pagar as contas. Por causa da situação difícil, a terra ficou parada, em repouso, sem plantio… como se aguardando a nova fase que estava por vir.

Quando plantavam tomate do jeito convencional, e o Kelvin ajudava, ficavam preocupados com a saúde do filho. Eles achavam que não era justo o Kelvin se expor ao veneno, e começaram a pensar em produzir algo mais saudável. E foi um golpe de sorte que marcou o novo período dos Dias: um auditor do IBD (Instituto Biodinâmico) foi fazer uma auditoria na região e, a pedido de Gisele, foi até as terras deles. Vendo a terra em repouso, exclamou: – “Por que vocês não estão produzindo orgânicos?

E foi aí que tudo mudou.

Começaram a produzir para a empresa Horta e Arte que pagou pela certificação deles e, também, os ensinou a fazer o planejamento. A contrapartida era dar a eles exclusividade nas vendas. A parte puxada era receber em 90 dias e, também, receber de volta os orgânicos que não eram vendidos.

Acabaram desenvolvendo novos clientes, passaram a entregar cestas de orgânicos na Granja Viana e em São Paulo, forneceram por 7 anos para os restaurantes vegetarianos Cachoeira Tropical, no Itaim Bibi, em São Paulo, e Ser-a-Fim, na Granja Viana, em Cotia, onde também forneceram para a Frutaria do Centrinho da Granja e para a a quitanda República das Bananas, também na Granja Viana.


Os orgânicos

“As pessoas ainda não entendem o que é o alimento orgânico, que o orgânico é bom para a saúde, que o orgânico tem praticamente o mesmo preço o ano todo”, lamenta Gisele.

Eu já vi a Gisele, na EcoFeira da Granja Viana[1], respondendo, com a maior paciência, que aquela maçã era orgânica, dando mais importância a este fato do que ela ser do tipo gala ou fuji. O mesmo com a banana, se a pergunta era: banana nanica? Banana prata? Banana maçã? Presenciei o esforço dela em dar mais ênfase ao fato de a banana ser orgânica, “a que temos hoje”, do que ao tipo da banana. As frutas orgânicas ainda são difíceis de se conseguir, e eles as compram de um fornecedor de orgânicos, no CEAGESP. Passaram a fazer isto para diversificar a oferta na EcoFeira. Gisele conta que as pessoas ainda procuram verduras, legumes e frutas bonitos, “tipo exportação”, sendo que os orgânicos, muitas vezes, não são, digamos, “de propaganda”!


A roça

Hoje, a Família Dias tem a roça nas terras do pai da Gisele.

Pude ver, em diferentes estágios: alface romana, americana, lisa, roxa, rúcula, míni-rúcula, espinafre, couve, repolho, acelga, salsinha, cebolinha, coentro, berinjela, batata, milho, ervilha, pimentão, couve-flor.

A questão da roça é vital para a Família Dias.
É uma escolha.
É uma opção.

Tanto Gisele, como seu Benedito, como Kelvin, tem, cada qual, muito orgulho deste caminho.
Estão nele porque acreditam nele.
Estão no caminho da agricultura orgânica familiar por paixão.

Eles têm planos: uma estufa com gotejamento, para driblar o tempo da seca e, também, uma estufa na própria roça, onde estão os eucaliptos… Fazer um rancho, na roça, com um fogãozinho a lenha… Também sonham em tornar aquele “pedacinho do paraíso” em um local para turismo rural. Como diz a Gisele, “para quem planejava desistir de tudo… que mudança, não?”


O dia a dia dos Dias

Acordar cedo, tipo 1, 2, 3, 4 da manhã, é algo comum no dia a dia da Família Dias.

Kelvin, por exemplo: na quarta-feira, sai às 4 da manhã para comprar frutas orgânicas no box da Luciana do CEAGESP.

Na sexta-feira, acorda bem cedinho para a colheita tanto da roça deles, como para pegar orgânicos das roças das pessoas da cooperativa, para levar para a Feira do Ibirapuera no sábado.

No sábado, saem às 2 da manhã, com destino ao Ibirapuera: Gisele, Kelvin, mais a irmã da Gisele, o cunhado e o sobrinho.

Seu Benedito não vai porque fica colhendo os orgânicos que vão para a EcoFeira da Granja Viana no domingo. E aproveita para esperar a mulher e o filho com um almoço feito por ele.

Na segunda-feira, seu Benedito tem colheita para as entregas de orgânicos das terças e quartas-feiras.
Quartas e quintas-feiras são dias para Seu Benedito preparar o canteiro, plantar, carpir, irrigar, muitas vezes sozinho, porque não é sempre que o Kelvin consegue ajudar.

E a Gisele cuida dos pedidos, das vendas, da certificação, foi presidente da APROUNI (Associação de Produtores Unificados, de Cotia e Ibiúna) de 2008 a 2016 e, há 7 meses, fundou o grupo PROAC (Produtores Orgânicos Amigos de Caucaia do Alto). É bonito ver os três trabalhando em tamanha sintonia.


O café

Voltando da roça, seu Benedito foi fazer um café para nós. Café fresco, pão de coco e queijo branco. Lanche de roça. Mais um dedo de prosa, e o sol ainda nos presenteando em pleno entardecer de outono.


A despedida

Ganhei uma caixa cheia de orgânicos fresquinhos, colhidos na hora, especialmente para mim: vários tipos de alface, salsinha, couve maravilhosa para o meu suco verde, pepino, abobrinha, couve-flor, acelga, vagem, espinafre… quanta coisa boa, fresca, apetitosa!
Pego a estrada de volta, levando comigo:
os momentos com a Família Dias.
A tarde gostosa e inspiradora.
O calor do sol.
O gosto do café.
Um pouco da roça.
A esperança nos orgânicos.
O orgulho pela EcoFeira.
Muita vontade de escrever.
E compartilhar tudo isto.
Com você.


A EcoFeira

Ah! E como os Dias foram parar na EcoFeira?

Bem… a EcoFeira nasceu com eles, com a Família Dias! Uma história que já tem 7 anos!

No nosso movimento Transition Granja Viana, ligado à sustentabilidade, a questão dos orgânicos era muito presente. Sabendo que havia produtores locais de orgânicos, nosso grupo decidiu criar o GOL – Gostamos de Orgânicos Locais – e ele nasceu bem na Copa do Mundo de 2010! Eu adorei batizá-lo, e gostei ainda mais de ter criado o “slogan poético”:

EcoFeira Granja Viana: todo domingo, todo mundo ama!

Mas voltemos ao GOL.

Fiquei sabendo só agora que o Hamilton Trajano Cabral, extensionista rural e paisagista, foi o anjo da guarda da Família Dias e os estimulou a fazer entregas de orgânicos na região e que a Dani Terracini, do Transition, foi uma das primeiras pessoas a fazer pedidos semanais para a Família Dias, ou seja, a Dani foi a sementinha do GOL!

E foi fazendo meus pedidos de orgânicos, pelo telefone, para a Gisele, que ela me contava que as coisas estavam difíceis, que estava muito duro comercializar o que produziam, e que estavam prestes a jogar não só a toalha, mas outras coisas, como a enxada, o rastelo, o trator, sucumbir à especulação imobiliária e vender suas terras.

Nossa, pensava eu, isto não podia acontecer!

E levava esta realidade às reuniões do Transition. O sonho de termos uma EcoFeira estava nas nossas mentes – e corações – e foi nessa ocasião que a Theresa Franco, do Transition, conheceu a Cristina Oka, secretária do Turismo de Cotia, na época, em um evento e, numa sincronia e sinergia totais, (mais muito trabalho, esforço e dedicação de todas as partes) o sonho tornou-se realidade!

A EcoFeira começou na Escola da Granja, depois fomos para o salão de festas da Matriz da Igreja de Santo Antônio, fizemos EcoFeira no Templo Zu-Lai e, finalmente, ganhamos nossa sede oficial da Prefeitura de Cotia: o Parque Teresa Maia!

Ao todo, são 35 fornecedores e, além dos legumes, verduras e frutas orgânicos, há uma infinidade de outros produtos locais, familiares, integrais e artesanais: tortas, quiches, pratos veganos, pães, doces, bolos, doces árabes, empadinhas, empanadas, geleias, queijos, mel, artesanatos, sucos, chás, ração orgânica para animais, produtos de limpeza, e muito mais, fora o astral! O astral é um caso à parte. A EcoFeira é um ponto de encontro, de atividades, de eventos, de música, de palestras, workshops, de bate-papos. Um programa para as manhãs de domingo.

Estamos lá, todo domingo, das 8h00 às 13h00: EcoFeira Granja Viana: todo domingo, todo mundo ama, lembra?


Conheça os produtos da Família Dias.

 

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