Barbara Krotoszynski

Nas barracas do centro, sentadas lado a lado, estão as duas senhoras mais doces da Ecofeira: Yola e Barbara. A primeira, com seus biscoitos e doces, e Barbara, com suas alquimias.

Não posso falar que Barbara produz geleias e chutneys. É muito mais poderoso! Barbara é uma grande alquimista, uma mistura de cozinheira, jardineira e feiticeira. Quem a vê pela primeira vez, não imagina a grande e poderosa mulher que está ali. Não consigo falar dela sem pensar no seu jardim, cheio de caminhos secretos e espécies diversas incríveis. Muitas flores, muitas ervas, pimentas… Ah, sim, a Jabuticabeira! Essa que eu escrevo com letra maiúscula para fazer juz à sua grandiosidade.

Anualmente, ela dá frutos para virar a melhor geleia de jabuticaba que já comi. Mas vamos do começo… Barbara Bozena Krotoszynski, nascida dois dias antes de iniciar a 2ª guerra mundial, na cidade de Gdansk, na Polônia. Filha de pai polonês e mãe alemã. Neta de austríaco, húngaro e polonês – pequenos burgueses, como ela conta. Barbara diz que não tem memórias dessa época. Passou a infância com sua mãe na Polônia e um breve período na Alemanha. A guerra separou seus pais, e, quando terminou, com a ajuda da Cruz Vermelha, se reencontraram nos Estados Unidos, um novo lar para uma nova vida. Foi lá que ela passou a
adolescência.

A cozinheira da casa era sua mãe, mas foi ela, Barbara, ainda bem menina, que se aventurou fazer a geleia que seu pai tanto amava. Ele havia morado na Inglaterra e sentia saudade da geleia de laranja inglesa, um pouco mais amarga. “Sua expressão, ao provar a minha primeira tentativa solo na cozinha, é a reação que procuro em todos os que saboreiam meus produtos até hoje, – um misto de grande surpresa e alegria”, ela conta com olhos brilhantes.

E foi nesse caminho, entre a cozinha e o jardim, que a trajetória de Barbara foi seguindo. Chegou no Brasil e foi morar em Santos. Depois foi para Viçosa, Minas Gerais. Lá estudou agricultura e economia doméstica. Passou pelo norte do Paraná, São Paulo e, em 1972, chegou na Granja Viana. Um tempo depois, surgem minhas primeiras lembranças de Barbara. Eu era bem pequena mas prestava atenção, gostava dela, a achava linda! E deve ter sido nessa época, início dos anos 80, que entrei pela primeira vez no seu jardim.

Bárbara escrevia no Jornal d’aqui, o jornal do bairro. Escrevia sobre jardinagem e às vezes compartilhava algumas receitas. Também era muito ativa em todos os movimentos da comunidade, fosse para opinar sobre a chegada do asfalto, ou para atuar na revitalização da praça. A comunidade cresceu, a Granja cresceu.

Pergunto a ela se aqui ainda é um lugar especial para se viver.

“É um lugar onde podemos nos
reinventar, mudar e, ao mesmo tempo, criar raízes. Não existem muitos lugares assim hoje em dia. A Ecofeira é uma festa, um encontro de vizinhos, amizades antigas e novas, convivência com colegas prestativos, calorosos e, principalmente, existe a alegria das crianças com seus pais. Convivência, e, last but not least, vendas. Há mais pessoas conscientes dos benefícios de uma vida saudável.”

Barbara é casada com Jan, tem quatro filhos, uma menina e três meninos. Cinco netos e dois bisnetos. Diz que um dia feliz se resume ao momento em que a família se reúne em torno de uma mesa farta de comidas preparadas com carinho, em seu paraíso. Fica muito feliz quando vê a neta Helena fazendo brigadeiros para vender às colegas, sua neta Alice criando receitas, quando seu filho prepara um “Salmon en croûte” ou ainda presenciando seu neto cultivar uma horta orgânica. São todos frutos de uma árvore majestosa, penso eu.

Define a cozinha como um ato de pesquisa, de invenção, de amor e carinho. É sua grande paixão e que caminha de mãos dadas com o amor pelas plantas, pela natureza.

Barbara faz parte da Ecofeira desde o início. E dificilmente se ausenta. Sorte nossa! É um grande presente con – viver e desfrutar de suas poções mágicas, saboreando de seu jardim através de sua comida.

Todo jardim começa com um sonho de amor. Antes que qualquer árvore seja plantada ou qualquer lago seja construído, é preciso que as árvores e os lagos tenham nascido dentro da alma. Quem não tem jardins por dentro, não planta jardins por fora e nem passeia por eles…
Rubem Alves

Thaís Roji
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